Redes criminosas globais usam exchanges do Brasil para lavar criptomoedas, aponta Chainalysis

Destaques
- Redes globais de lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e evasão de sanções já operam em exchanges brasileiras, segundo a Chainalysis.
- Entre 75% e 90% do volume ilícito nas exchanges do Brasil se concentra em apenas cinco endereços de depósito por trimestre.
- O novo marco regulatório de criptomoedas do Banco Central entrou em vigor em fevereiro de 2026, com prazo de licenciamento até outubro.
Com um volume estimado de US$ 318 bilhões em criptoativos recebidos entre julho de 2024 e junho de 2025, o Brasil consolidou-se como o maior mercado de criptomoedas da América Latina e também como alvo de redes criminosas globais. É o que aponta um relatório da Chainalysis publicado em junho de 2026, que identifica a presença de organizações de lavagem de dinheiro, traficantes de drogas e entidades sob sanções internacionais operando em exchanges brasileiras.
Segundo a empresa de análise blockchain, o Brasil responde por aproximadamente um terço de todo o valor em criptomoedas movimentado na América Latina. Esse crescimento expressivo, impulsionado por uma população jovem, pelo setor de fintechs e pela demanda por stablecoins como proteção contra a inflação, também atraiu atores ilícitos que antes atuavam em outros mercados.
Três ameaças globais convergem no Brasil
De acordo com a Chainalysis, três categorias dominam o ecossistema global de lavagem de criptomoedas e todas têm presença confirmada no Brasil.
A primeira são as redes de lavagem de dinheiro de língua chinesa (Chinese-Language Money Laundering Networks, ou CMLNs), que oferecem lavagem de dinheiro como serviço para organizações de tráfico de drogas, esquemas de fraude e, cada vez mais, atores estatais. Essas redes respondem por cerca de 20% de todo o ecossistema ilícito on-chain global, uma participação que cresce de forma consistente desde 2021. No Brasil, sua presença é compatível com um padrão mais amplo na América Latina, onde essas redes se estabeleceram em países com corredores comerciais ativos e grandes economias informais, usando criptomoedas como camada de liquidação transfronteiriça.
A segunda categoria é a evasão de sanções. Só em 2025, entidades estatais movimentaram cerca de US$ 104 bilhões em criptomoedas para contornar restrições financeiras internacionais, um crescimento de 694% em relação ao ano anterior. Conforme as vias financeiras tradicionais foram se fechando para entidades russas após a invasão da Ucrânia em 2022, mercados emergentes com infraestrutura de criptomoedas em expansão, como o Brasil, tornaram-se rotas alternativas cada vez mais atrativas.
A terceira é o tráfico de drogas, que permanece uma presença estável e persistente no cenário ilícito de criptomoedas, com particular ressonância regional. O Brasil está posicionado ao longo de rotas sul-americanas de tráfico de cocaína, e organizações criminosas brasileiras como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho já foram documentadas usando criptomoedas em suas operações financeiras. Ambas são classificadas como Organizações Terroristas Estrangeiras pelos Estados Unidos.
Como essas ameaças se manifestam nas exchanges brasileiras
Ao analisar os fluxos ilícitos para exchanges locais, excluindo grandes plataformas globais com usuários brasileiros, entre 2023 e 2025, a Chainalysis identificou uma mudança significativa no perfil das atividades ilícitas.
Em 2023, os fluxos eram distribuídos entre diversas categorias de atividade ilícita. Já em 2024 e 2025, o quadro mudou de forma expressiva. A lavagem de dinheiro relacionada a cartéis emergiu como a maior categoria isolada de entradas ilícitas, reflexo direto da posição do Brasil como corredor de trânsito e mercado de destino para o tráfico de drogas. Além disso, fluxos vinculados a CMLNs apareceram de forma consistente ao longo do período, conectando as exchanges brasileiras à mesma infraestrutura global de lavagem que atende grupos criminosos ao redor do mundo.
Também foram identificados fluxos relacionados à Rússia, incluindo entidades sujeitas a sanções internacionais, que se tornaram componentes mais visíveis do conjunto, especialmente em 2024 e 2025. Por fim, serviços de guarantee, uma espécie de escrow criminal associado a fraudes e crime organizado, também apareceram nos dados brasileiros em 2025, o que indica que o mercado local está sendo integrado a ecossistemas criminosos mais amplos.

Alta concentração facilita rastreamento e intervenção
Um dos achados mais relevantes da análise diz respeito à concentração dos fluxos ilícitos. Embora o número de endereços de depósito expostos a entradas ilícitas nas exchanges brasileiras tenha variado entre 550 e 950 por trimestre desde 2023, o que sugere que os criminosos dispersam os recursos entre muitos pontos de entrada para dificultar a detecção, os dados também evidenciam uma concentração expressiva.
Conforme demonstrado pela Chainalysis, os cinco endereços de depósito mais expostos por trimestre responderam consistentemente por entre 75% e 90% do volume ilícito total recebido. Essa concentração tem relevância operacional direta: apesar da amplitude do problema, uma parcela significativa do volume ilícito é rastreável a um número reduzido de endereços de alto risco, o que abre oportunidades concretas de intervenção.

Novo marco regulatório do Banco Central para criptomoedas
Esses fluxos ilícitos se desenvolvem em um momento de profunda transformação regulatória no mercado de criptomoedas brasileiro. Em novembro de 2025, o Banco Central do Brasil (BCB) publicou as Resoluções 519, 520 e 521, que regulamentam a Lei de Ativos Virtuais de 2022. O regime entrou em vigor em 2 de fevereiro de 2026 e estabelece um caminho de licenciamento para prestadores de serviços de ativos virtuais (PSAVs), abrangendo corretoras domésticas, custodiantes e intermediários, além de empresas estrangeiras que atendem clientes brasileiros.
As obrigações incluem regras de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo (PLD/FT), a Travel Rule do GAFI (Grupo de Ação Financeira Internacional) e o tratamento de transferências transfronteiriças de stablecoins como operações cambiais, nos termos da Resolução 521. As obrigações de reporte passaram a vigorar em 4 de maio de 2026, com prazo de licenciamento para empresas já existentes em 29 de outubro. Em paralelo, em março de 2026, a Lei nº 15.358 ampliou os poderes das autoridades para bloquear, apreender e reutilizar ativos digitais vinculados ao crime organizado.
Nesse sentido, o Brasil avança mais rápido do que a maioria dos países da região e tem se consolidado como referência regulatória para a América Latina, ao lado de Argentina, México e Colômbia, que também adotaram, em ritmos distintos, frameworks para o setor de criptomoedas.
O que os dados exigem do setor
A convergência entre as tendências globais do crime em criptomoedas, o novo marco regulatório operacional e o dinamismo do mercado brasileiro cria tanto urgência quanto oportunidade. As redes que lavam recursos de cartéis, evitam sanções e atendem agentes estatais hostis já estão ativas no ecossistema brasileiro, e o prazo regulatório de 29 de outubro representa a primeira prova real para o setor.
Segundo a Chainalysis, ferramentas como o Reactor, o Data Solutions e o KYT (Know Your Transaction) já são capazes de identificar os sinais de alerta presentes nos dados das exchanges brasileiras. Isso significa que a intervenção direcionada, o reporte e as investigações não são capacidades futuras: estão disponíveis agora.
Para exchanges, reguladores e autoridades policiais brasileiras, o prazo de conformidade é, portanto, uma oportunidade imediata de demonstrar, com evidências on-chain, que a atuação direcionada pode superar os agentes globais de ameaça que já chegaram ao mercado de criptomoedas brasileiro.
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